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A História do Som: um breve momento no tempo

  • Foto do escritor: danielsa510
    danielsa510
  • 6 de abr.
  • 3 min de leitura
Crédito: International Film Festival of Rotterdam
Crédito: International Film Festival of Rotterdam

Quantas vidas uma pessoa pode viver ao longo do curso de uma existência? Essa parece ser uma das múltiplas questões de onde Oliver Hermanus parte para traçar o perfil de um relacionamento que não chega a ser interpretado pela ideia da proibição, mas que se estrutura a partir de uma dinâmica de anonimato e inquietude.


Nisso, gosto demais do modo como a premissa central de A História do Som (2025) se elabora considerando uma sobriedade no trato da natureza desses personagens que se abrem para vivenciar a prática do amor levando em conta tudo aquilo o que une duas figuras em termos de interesses e crenças pessoais, profissionais, íntimas e coletivas.


Não é nem que as coisas sejam estabelecidas de modo idealizado, alienante. O romance obedece ao fluxo do tempo que é permitido a Lionel e David.


Nessas idas e vindas do amor, a maturidade desse tempo vivido parece ser sempre a bússola que guia a forma como esses homens enxergam e experimentam os eventos das suas vidas. Incrível como esse tom lírico também acompanha a proposta e jamais se desvencilha dela ao longo da duração de duas horas e dez do filme.


Penso que o Hermanus faz algo bem semelhante ao que a Kelly Reichardt consegue com First Cow (2019), mas com o ônus de sustentar uma narrativa melódica que não soa piegas, que circunscreve-se pelas dobras de um tempo histórico bem específico.


Falamos de um intervalo entre a primeira e a segunda metades de século XX, que não pende para uma dramaturgia fatalista ou punitiva, levando em conta a vertente desnormatizada da histórias, com "H" maiúsculo e a com "e" minúsculo.


São raros os trabalhos que conseguem, a exemplo, desse aqui, conciliar tons e intenções de modo tão orgânico, coeso e sensível. Quanto ao uso desse último termo, por sensibilidade, não entendamos o fato de a obra tratar de um enlace amoroso, ou pelo fato de a trilha evocar um sentimentalismo da ordem da intimidade no nível da técnica em si.


Tenho muitas reservas quanto ao uso da palavra em si pelo fato de que a "narrativa sensível" ou o "filme de sensibilidade" tem, a um só tempo, se transformado numa espécie de clichê temático cujo sentido vai, cada vez mais, se esvaziando à medida que o seu uso se torna uma aplicação generalista.


Há um sentimentalismo envolvido aqui, mas ele não se anula numa janela meramente representativa ou pior, considerando um senso de nostalgia desmemoriada e asséptica em torno das costuras entre o ontem e o hoje.


A título de exemplificação, é como pensarmos tudo o que torna o cinema de um diretor como Kleber Mendonça Filho quase sempre um exercício de desmemorialização em torno daquilo o que ele, ironicamente falando, vem a decidir criticar, aludir ou reverenciar.


Vejam, tudo o que o último ato de O Agente Secreto (2025) não consegue elaborar, o Hermanus reorganiza em favor da proposta do seu filme. E por isso que este trabalho funciona de modo tão marcante na comparação com o projeto do realizador brasileiro.


Não é o apego a um passado perdido, em vão e trágico que move os personagens no hoje, mas sim, essa noção de caminhada feita e que segue modulando os passos daqueles que aqui ainda estão trilhando suas próprias histórias de vida.


Construções que aliam forma e sentido de modo sério, considerando um cinema de perspectivas, com intenção entre o compromisso com um determinado estilo e consciência técnico-formal. Ou seja, um filme perfeito, ideal. Um clássico instantâneo, por isso mesmo.

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