Hamnet: distanciamentos e aproximações na tragédia contemporânea
- danielsa510
- há 8 horas
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É um alento ver a Chloé Zhao retornar para uma abordagem mais intimista na experiência da elaboração do seu cinema. Interessante como, aqui, ela até difere bastante, em termos de estilÃstica, da perspectiva que ela mesma vinha imprimindo nos seus trabalhos mais "autorais", como Songs My Brothers Taught Me (2015) ou Nomadland (2020).
Apostando numa veia representativa mais clássica, a diretora parte da ideia de uma adaptação literária para traduzir isso em função de determinados códigos especÃficos do cinema. Três elementos que se combinam nesse modo de representação pela mise en scène são justamente a fotografia, os cenários e a direção de arte.
Não gosto muito de operacionalizar a análise de modo tão compartimentado, mas aqui, esse parece ser o modo mais justo de lançar um olhar à obra.
Na verdade, essa suposta operacionalização nem exerce uma dinâmica tão rigidamente dividida no modo como podemos olhar para o filme, uma vez que cada um desses elementos se equacionam a partir de um estado quase simbiótico, por assim dizer.
Eles não estão desvinculados umas das outras. Funcionam em chaves alternadas, mas não divididas. A cena na sua dimensão mais reduzida, pode sempre ser lida, reinterpretada, enquanto uma peça tripartite composta por tudo o que a cenografia, os figurinos e os jogos que a luz ajuda a circunscrever na sua veia fotográfica, pictórica, e imagética.

É o plano fixo, tablado, estabelecido a uma distância média que não nos permite dizer se há uma distância ou aproximação instituÃda, ainda que nem sempre obedeça a essa construção.
Fato é que essa câmera mais livre, escorregadia, que remonta bastante aos filmes anteriormente citados acima, parece se vincular a todo o primeiro ato quase que de modo ressonante à liberdade que a descoberta do amor viria a implicar à Agnes e William.
Quando o segundo ato se apresenta, a distância e a itinerância de uma dinâmica amorosa repartida, pela metade, reflete o consequente distanciamento que a lente parece emular.
Uma frieza que só se dissipa pela manifestação inequÃvoca e presente da arte - em suas evocações diegéticas e extra conceituais ao filme -, bem como pelo seu papel restaurador e de enfrentamento das sombras que habitam nas vidas de todos nós.
E isso foi algo que Zhao captou de modo muito visceral numa das experiências mais intensas e emocionantes nessa temporada. Um filme para guardar na memória.