Eles Não Usam Black Tie: o naturalismo transcedente de Leon Hirszman
- danielsa510

- há 1 dia
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É algo muito forte a aproximação possível entre o cinema de Robert Bresson, dos Straubs e aquele executado por Leon Hirszman. Sempre gostei muito da premissa mais clássica, por vezes até hiper encenada da dramaturgia do cineasta e em como isso acaba gerando um "ruído" revelador de diversas nuances, sobretudo nesse coeficiente de distinção entre os tons e a força de cena entre os atores.
Nos núcleos de Eles Não Usam Black Tie (1981) em que vemos Tião e Chiquinho, e uma cena de diálogo, a força dessa atuação menos vigorosa se explicita bastante, ainda que entendamos que todo o elenco opera dentro de uma régua dramatúrgica mais padronizada.
Ou seja, mesmo quando Guarniere ou Montenegro estão em cena, a potência contida na expressividade e no texto carregado pelos veteranos jamais soa fora de sincronia com a expressão estabelecida pelo demais corpo de atores.

No entanto, quando a dupla opera enquanto um duo interpretativo, toda essa carga dramática vem à tona das mais variadas formas. Seja a partir de uma troca de carícias, uma discussão leve, um diálogo mais acalorado ou por meio do silenciamento da fala e da soberania do gesto sob a palavra, esse poder se manifesta de modo quase transcendental.
Toda a sequência da coleta do feijão na mesa da cozinha revela isso. E aí, retornamos à Bresson e Straubs pela inflexão que Hirszman sempre soube instituir nas narrativas por ele dirigidas. Há geralmente esse elemento transcendente, meio hipnótico e quase sobrenatural dentro desse naturalismo do dia a dia de personagens reais.
Daqueles que poderiam ser nossos avós, irmãos, tios e tias. Brasileir@s da classe trabalhadora em um Brasil não idealizado, repleto de variantes e contradições. E por isso mesmo, humano, antes de qualquer coisa.
A relação entre o trabalho e o cinema também foi elaborada por nós a partir de um vídeo-ensaio específico no canal Um Filme ou Dois. Assista abaixo:



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