Futuro Futuro: o problema da elaboração da discursvidade
- danielsa510

- 22 de jul.
- 3 min de leitura

Futuro Futuro (2026) transita numa atmosfera que se assemelha muito a um período específico da produção cinematográfica brasileira contemporânea, ali por volta do início dos anos 2010, sobretudo em obras como Brasil S/A (2014), Café com Canela (2017), etc.
Não são obras com problemas irreparáveis, mas que concentravam uma certa dificuldade em elaborar o próprio discurso em torno da mensagem e da ambiência que tentam construir, investigar.
Nem acredito que a questão seja alguma incapacidade do Davi Pretto em justificar as decisões que ele toma para a impressão da dramaturgia e o modo como os eventos se encadeiam e sucedem consequentemente.
No cinema, o realizador não precisa justificar suas ações em prol de um didatismo que vá oferecer todas as explicações que o espectador, por ventura, precise ter na sua relação com o filme. Do mesmo modo, nada do que o autor da obra sustenta na sua decisão final precisa corroborar com a leitura da crítica especializada, etc.
Em todo caso, como é a questão aqui, é impossível ficar indiferente a certas apostas que o longa-metragem apresenta. Como no fato de ele confiar muito na posição de um elenco que atua dentro de uma escala bastante frágil entre a representação mais acentuada, dramatizante e uma modulada por instantes de menor intensidade das falas, dos gestos e expressões em cena.
Essa falta de balanceamento entre esses dois núcleos, de fato, é a maior fragilidade do trabalho. Não o anula por completo, mas gera essa percepção de que, a exemplo do que parte dos personagens colocam ao longo da narrativa, "algo não parece certo".
Logo, esse sentimento de inadequação que, a priori, deveria ser o mote detonador da crítica intuída pela mensagem do filme, se volta contra a própria obra, dada a inconsistência no modo como a trama, em si, acaba sendo conduzida. E não deixa de ser curioso notarmos que há uma inversão no modo de representação dos "lados da história", considerando essa veia que, naturalmente, coloca a periferia e a elite brasileira em lados opostos desse tabuleiro distópico.
O problema é que o Pretto, ao tentar modular essa duas formas de forças em campos opostos e não necessariamente dialetizantes, nos induz a uma percepção que é meramente antagônica. Na leitura contemporânea do cinema, esse estado de confronto blocado permite quase nenhuma abertura para a dúvida ou para troca de papeis.
O fluxo da dinâmica dramatúrgica só obedece uma linha diretiva daquilo o que seria o "bem" contra o "mal". De todo modo, os personagens nem são classificados ou apresentados como tais, o que é muito bom.
Mas ainda assim, o peso atrelado à visão e ao poder de reação das figuras que vivem na parte periférica da cidade nos leva a essa leitura dos mesmos como pessoas do ressentimento ou da amargura, simplesmente.
Todo o senso de comunidade ou a ideia de uma dinâmica construída e possível entre esses indivíduos para a superação dos seus problemas se dissolve numa abordagem que parece prezar mais instantes de interações truncadas dramaturgicamente e com pouca abertura para momentos de respiro e improvisação na execução da mise en scène.
Em alguns aspectos, a direção até poderia ter apontado para algo mais alinhado com um projeto como Arábia (2017), também vencedor do Festival de Brasília, e que lida de modo totalmente diferente com a sua proposta dramatúrgica por entender que as limitações e potências interpretativas do elenco ao seu dispor operam de forma modular.
Atores e aqueles sem uma formação profissional contracenam balanceando momentos de maior ou menor intensidade dramática. O resultado: um naturalismo que convence pela falta da necessidade da validação do gesto, de uma fala.
O personagem não necessariamente encena, ele só está presente na cena e nesses casos, só isso basta. É assim no cinema dos grandes diretores do país, de Adirley Queirós a Anita Rocha da Silveira, passando por Lincoln Péricles a André Novaes.
São lições que o nosso cinema vai estabelecendo na sua relação com a contemporaneidade e que nos servem como uma boa régua na nossa lida com as obras de um modo geral. Infelizmente, não é o que acontece com o filme de Pretto. Uma pena mesmo.



Comentários