Homem-Aranha: Um Novo Dia (2026) | Mudanças bem-vindas
- danielsa510

- há 11 minutos
- 4 min de leitura

Não parece uma tarefa simples dessuperficializar uma proposta de filme de super-herói a partir do contexto em que vivemos atualmente. Na era das Inteligências Artificiais, o contorno do padrão estabelecido já sugere que algo de diferente foi ensaiado, testado a priori.
Algo que fica bem aparente neste filme. Diferente do que havia feito em Shang-Chi (2021), o Cretton concentra sua atenção num coeficiente dramático da coisa que não escorrega para uma representação idiotizada, sentimentalóide ou irritante que seja. A figura da vilã em si evoca, em parte, esse índice, mas ele não contamina a obra na sua totalidade.
Um dos maiores antídotos contra isso vem justamente desse elemento dramático mais contido e pautado numa dinâmica orgânica estabelecida entre o núcleo central da narrativa. Quando Parker, MJ e Ned estão juntos, mesmo que em núcleos separados entre si, há um frescor e uma naturalidade no nível da interpretação que eleva muito o sentido das interações.
Gosto bastante de como questões que poderiam ser detalhes esquecidos ganham atenção e reforçam essa determinação da palpabilidade das coisas da vida real dentro de uma produção que adapta uma história em quadrinho de traços fantasiosos.
Podemos ver um personagem soltando teias pelos pulsos, segurando objetos da carga de toneladas e voando pelos ares ou cruzando as avenidas de Nova Iorque, mas também presenciamos uma situação onde um tem de dar carona ao outro devido ao esquecimento de uma chave de um apartamento, uma ida a um café ou uma visita domiciliar não programada.
É muito legal como são nessas microdinâmicas que a história do super-herói contemporâneo ganha um pouco mais de profundidade e se autentica pela proximidade de interlocução estabelecida com a vida real do espectador.
Queira ou não, é preciso coragem e um olhar mais atento para propor esses arranjos dentro de uma estrutura tão engessada e micro gerenciada quanto a dos grandes estúdios de Hollywood onde a Sony e a Marvel se inserem.
Mais que isso, há um limite delimitado no qual essas figuras não ultrapassam, dado o papel que cada um exerce no curso dos eventos. Todas as interações entre Parker e Ned, por exemplo, ocorrem em circunstâncias cotidianas ou espontâneas. São naturais e um personagem não interfere no universo de ação do outro, pelo menos não explicitamente.
Esse, a propósito é o meu maior problema com "Sem Volta para Casa" (2021). É como se, em favor do fan service ou dessa necessidades de hiper conexão desesperada pela validação desse espectador mais reativo (e por consequência menos consciente e crítico), o filme não delimitasse arestas do campo de atuação de cada uma dessas figuras.
O herói deixa de ser uma referência e passa a depender da ajuda de nomes "ordinários" para executar suas tarefas extraordinárias. Isso para não falar da inserção à fórceps da linha do tempo de todos os "aranhas" do estúdio.

Enfim, nada disso ocorre nesse novo filme porque todos os papeis estão bem definidos. E como falei anteriormente, isso reforça o uso acertado de uma uma gramática mais dramática e direcionada para a modulação de tons que não tem como objetivo superar a ação a todo custo.
Retorno à vilania: sim, ao fim de tudo haverá uma catarse e a ameaça ali situada abrirá mão da sua escalada de destruição e vingança irrefreada a fim de que a história se conclua. Mas, retirando esses excessos - algo semelhante ao que vimos em Thunderbolts* (2025) -, há bastante espaço para a apresentação de algo "novo", na verdade, um retorno aos moldes da cartilha do Raimi nos termos da forma e do sentido.
Vou voltar à questão da organicidade uma vez mais porque ela parece um termo interessante para pensarmos, por exemplo, como a ação pode ser potencializada considerando uma construção que se utiliza de uma espacialidade das áreas físicas o filme para imprimir autenticidade no próprio índice dramático das cenas.
Ao invés de um conjunto de sequências elaboradas em telas azuis, com uma série de objetos e estruturas igualmente criadas digitalmente sob a tutela de uma intervenção mais "suave" no uso da Computação Gráfica, o filme reelabora a ação apostando numa premissa mais gráfica em contraposição à imageria do digital.
Todo o segmento do ataque do clã do "The Hand" na sede do Departamento de Redução de Danos ilustra bem isso. O embate entre protagonismo e vilania se dá em um ambiente palpável, melhor ainda, ele acontece em uma espacialidade real e conta com uma representação também na ordem da praticidade. São cabos de força, provavelmente, quem içam os personagens no ar.
A dispensa no uso da imagem gerada totalmente por computador garante, de quebra, uma melhor decupagem (nesse caso relacionada ao modo como as cenas são captadas pela câmera e encenadas pelos atores). É mais fluidez para o desenvolvimento da ação e uma recompensa para o espectador que consegue se situar bem ao longo do quebra-pau.
Uma essência do bom cinema de ação e de artes marciais que Cretton foi buscar no Wuxia e suas variações. Bom demais. Falando em referências, incrível como percebi, em alguns momentos, uma semelhança grande com Matrix Reloaded (2004).
Óbvio que são filme bem distintos, mas há um dado dessa artificialidade resetada no campo da aplicação prática que lembrou muito as Wachowski nos seus melhores momentos no mainstream. O cinemão está ali no centro, mas nas periferias da produção, ressoa esse traço mais "artesanal" do processo.
Chama muito a atenção o fato de entendermos e percebermos que o herói usa uma roupa, de verdade. O traje não é digital. Ele tem dobras, curvaturas, reflete a luz. Não se rasga, obviamente, mas que acaba reverberando na própria fisicalidade do protagonista em si.
Depois do Parker do Maguire, esse do Holland, neste filme, é o mais "escoriado", digamos. E todos os cortes, arranhões, sangramentos e hematomas que Parker carrega, aqui, elucidam isso na pele do personagem. Ele é humano ao fim de tudo.
Uma característica que é própria da figura criada pelo Stan Lee e o Ditko para as HQs, mas que atesta a possibilidade de uma elaboração mais crível desses heróis também nessa transposição para o cinema, apesar da Marvel. Esse foi o grande mérito de Cretton, sem dúvidas.



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