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Hope (2026): forma e escatologia no cinema de ação contemporâneo

Foto do escritor: danielsa510
danielsa510
há 24 horas
3 min de leitura

Atualizado: há 4 horas

Crédito: Imagem Filmes
Crédito: Imagem Filmes

Tem uma coisa no nível da forma que coloca Hope: O Primeiro Impacto (2026) numa ordem quase que da hipnose, de fato. Quando a gente pensa sobre os atributos da prática fílmica considerando essa dimensão, notamos o quanto a experiência contemporânea prescinde desse coeficiente.


O cinema se eleva no campo formal, é verdade. E quando passamos a notar como as imagens são constituídas, ao passo em que a própria montagem também vai revelando toda uma estrutura onde o tempo e o espaço coincidem, o filme ganha uma couraça, se estabelece quase como uma instituição que se dá por si mesma.


Acho que esse talvez seja o maior mérito do Na Hong-jin, pelo menos numa parte desse exercício analítico. É realmente bem particular e quase único o que ele elabora, aqui. No âmbito da mise-en-scene, fotografia, direção de arte e design de produção, operam constantemente como uma trinca organizacional de onde o filme vai se desenvolvendo.


É impressionante como os espaços ganham um aspecto realístico não por emularem uma plástica ou estética suja e detonada em função do rastro de destruição que os alienígenas e os humanos deixam por onde passam, mas devido ao seu índice prático, material e palpável.


Sem precisar de telas azuis ou verdes para dar a ver essa espacialidade, tudo o que é mostrado, seja interior ou exteriormente, nada parece "montado", artificialmente falando ou mostrando. Tudo existe nas cenas porque está lá: sejam tralhas amontoadas em um depósito, o lixo nas ruas ou as estruturas que se multiplicam pela cidade.


Tudo isso se materializa indiscutivelmente na estrutura da nave. Uma das maravilhas da experiência cinematográfica contemporânea são os filmes que conseguem criar essa palpabilidade na construção da espacialidade, seja ela urbana ou rural, vasta ou pré-determinada.


Parece que podemos tocar tudo aquilo. E sim, isso é cinema elevado à sua potência máxima. Mas ainda dentro do gesto analítico, seria ignorância ignorarmos o ruído que uma dramaturgia totalmente limitante causa nessa mesma estrutura feita para ser espetacular e proposta para ser captada, elaborada do modo mais espetaculoso possível.


Enquanto vemos, visualmente, tudo o que a câmera capta, também vamos construindo um consenso em torno do modo risível com que Hong-jin agencia seus personagens. Eles são risíveis, pedestres, instáveis e previsíveis. Modulados como um só. Todos são apenas um (no sentido não tão bom da palavra).


Não têm individualidade, nuances, pontos distintos de convergência ou fricção que os mobilizem enquanto uma comunidade. São apenas produtos de uma tentativa mínima ou inconsciente daquilo o que a humanidade pode ser quando levada às fronteiras de algo que ela não compreende.


O problema não é a marra, os palavrões, a esculhambação, o baixo calão ou a idiotice inerente. Parte do fato de o filme ter sido distribuído em cópias unicamente dubladas, inclusive, talvez inclua esse processo do "gosto" de se ouvir tudo isso em Português...enfim.


O humano, em toda sua complexidade é tudo isso, sim. A questão é a régua simétrica proposta por "jin" em um texto que trancafia os personagens numa espiral sem consequências ou zonas cinzas de operação.


Muitos têm falado sobre a paixão pelo cinema a partir do olhar de quem tem aprovado o filme. Ora, isso nada tem a ver com o sentimento que alguém pode estabelecer com a arte em si. As coisas vão além disso. Poucos cineastas e artistas trabalharam tão bem a ideia da avacalhação como David Lynch no Ocidente ou Chang Cheh no Oriente.


Àqueles que tem defendido essa perspectiva do "olhar" de Hong-jin, eu indico assistir Crippled Avengers (1978) para entender o que o cinema mobiliza verdadeiramente quando a paixão entra em cena e não somente o escárnio.

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