"O Morro dos Ventos Uivantes": suor, lágrimas e sangue na tragédia elementar
- danielsa510

- há 9 horas
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"Sem você, eu morro". Essa é uma expressão que pode ser tomada como um modo de definir bem as relações estabelecidas no contexto de qualquer obra romântica, se levarmos em consideração as características do movimento cultural e artístico nas suas mais variadas vertentes.
Ao longo dos últimos dois séculos e meio, a contar do período de declínio do movimento como um todo, o amor impossível figurou como uma máxima na construção, seja na literatura, na pintura, no teatro ou no cinema. No caso de "O Morro dos Ventos Uivantes" (2026) , é exemplar como Emerald Fennell concentra seus esforços para trabalhar em cima da dimensão técnico-conceitual do seu filme.
Isso significa dizer que, enquanto peça cinematográfica, a obra se basta. Ou seja, não depende do material oriundo do romance literário. E isto talvez seja o tópico de maior dificuldade de entendimento em torno deste trabalho em si. Longe de querer iniciar qualquer discussão em torno dessa questão da adaptação - pela falta de sentido e cabimento -, mais vale direcionar os elementos que tornam o filme sólido no nível do que o cinema por si pode propor, elaborar.
Gosto de pensar que toda obra que consegue se enunciar a partir de um bom prólogo, merece uma atenção naqueles momentos iniciais na nossa dinâmica com a peça fílmica. Logo, por conseguir apresentar todas as nuances daquela narrativa nos seus instantes iniciais, é que Fennell estabelece as credenciais do que veremos ao longo das suas duas horas e 16 minutos totais de duração.
Antes de contar uma história sobre a impossibilidade de um amor condenado, a diretora vai modulando temas de interesse da sua assinatura como uma autora no campo do cinema. Talvez um dos mais relevantes, aqui, não seja nem a ideação em torno da codependência de uma paixão sem limites, mas o modo como a materialidade desse mundo que envolve esses personagens nos apresentam esse universo por meio de chaves de percepção hápticas, nos termos estabelecidos por Laura Marks.
Nisso, tudo o que é passível do toque acaba sendo inserido como uma extensão do modo que devemos perceber e sentir essa narrativa. Não interessando à Fennell, portanto, um projeto meramente adaptativo ou de transposição do livro para o filme. Mas, sim, considerando uma certa investigação sobre a materialidade encarnada naquilo o que vemos registrado pela lente da câmera e restituído enquanto imagem ao fim do processo.

O toque de uma mão, a sensação do vento gélido no corpo durante uma noite fria de inverno, uma lesma que se expande em uma tela inteira ou a pele que se comprime diante da pressão de um par de mãos apertando um espartilho.
Suor, lágrimas e sangue são essa espécie de elementaridade trágica que evocam a fisicalidade da presença humana para além do julgo o que seria correto ou não na realidade da narrativa ou, no pior dos casos, em questões de tão pouco interesse quanto a do fato de o filme ser ou não "fiel" ao livro de onde ele se inspira.
E por inspiração, aqui, entendamos as partes da obra original de onde a cineasta vai reimaginar a experiência do seu longa-metragem. E por essa mesma razão que não podemos nos apegar a tal critério nessa relação cinema-literatura. Fennell é uma realizadora, e como tal, entende que não precisa se preocupar com essa dimensão do exercício artístico. Ou pelo menos não em uma base mimética desse fazer.
Seu filme é a matéria-prima máxima de onde tudo deve ser entendido, contestado se for o caso, mas não escrutinado numa relação equivocada, ingênua ou incompreendida por parte de quem não entende ainda isso. Fica a reflexão aos colegas da "crítica", do espectador confundido ou daqueles que se levam pelas correntes absurdistas da visão simplista do senso comum nas suas mais descartáveis concepções.



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