top of page

"O Morro dos Ventos Uivantes": suor, lágrimas e sangue na tragédia elementar

  • Foto do escritor: danielsa510
    danielsa510
  • há 9 horas
  • 3 min de leitura
Crédito: IMDb
Crédito: IMDb

"Sem você, eu morro". Essa é uma expressão que pode ser tomada como um modo de definir bem as relações estabelecidas no contexto de qualquer obra romântica, se levarmos em consideração as características do movimento cultural e artístico nas suas mais variadas vertentes.


Ao longo dos últimos dois séculos e meio, a contar do período de declínio do movimento como um todo, o amor impossível figurou como uma máxima na construção, seja na literatura, na pintura, no teatro ou no cinema. No caso de "O Morro dos Ventos Uivantes" (2026) , é exemplar como Emerald Fennell concentra seus esforços para trabalhar em cima da dimensão técnico-conceitual do seu filme.


Isso significa dizer que, enquanto peça cinematográfica, a obra se basta. Ou seja, não depende do material oriundo do romance literário. E isto talvez seja o tópico de maior dificuldade de entendimento em torno deste trabalho em si. Longe de querer iniciar qualquer discussão em torno dessa questão da adaptação - pela falta de sentido e cabimento -, mais vale direcionar os elementos que tornam o filme sólido no nível do que o cinema por si pode propor, elaborar.


Gosto de pensar que toda obra que consegue se enunciar a partir de um bom prólogo, merece uma atenção naqueles momentos iniciais na nossa dinâmica com a peça fílmica. Logo, por conseguir apresentar todas as nuances daquela narrativa nos seus instantes iniciais, é que Fennell estabelece as credenciais do que veremos ao longo das suas duas horas e 16 minutos totais de duração.


Antes de contar uma história sobre a impossibilidade de um amor condenado, a diretora vai modulando temas de interesse da sua assinatura como uma autora no campo do cinema. Talvez um dos mais relevantes, aqui, não seja nem a ideação em torno da codependência de uma paixão sem limites, mas o modo como a materialidade desse mundo que envolve esses personagens nos apresentam esse universo por meio de chaves de percepção hápticas, nos termos estabelecidos por Laura Marks.


Nisso, tudo o que é passível do toque acaba sendo inserido como uma extensão do modo que devemos perceber e sentir essa narrativa. Não interessando à Fennell, portanto, um projeto meramente adaptativo ou de transposição do livro para o filme. Mas, sim, considerando uma certa investigação sobre a materialidade encarnada naquilo o que vemos registrado pela lente da câmera e restituído enquanto imagem ao fim do processo.

No filme, os planos evocam a experiência sensorial em ampla dimensão. Crédito: IMDB
No filme, os planos evocam a experiência sensorial em ampla dimensão. Crédito: IMDB

O toque de uma mão, a sensação do vento gélido no corpo durante uma noite fria de inverno, uma lesma que se expande em uma tela inteira ou a pele que se comprime diante da pressão de um par de mãos apertando um espartilho.


Suor, lágrimas e sangue são essa espécie de elementaridade trágica que evocam a fisicalidade da presença humana para além do julgo o que seria correto ou não na realidade da narrativa ou, no pior dos casos, em questões de tão pouco interesse quanto a do fato de o filme ser ou não "fiel" ao livro de onde ele se inspira.


E por inspiração, aqui, entendamos as partes da obra original de onde a cineasta vai reimaginar a experiência do seu longa-metragem. E por essa mesma razão que não podemos nos apegar a tal critério nessa relação cinema-literatura. Fennell é uma realizadora, e como tal, entende que não precisa se preocupar com essa dimensão do exercício artístico. Ou pelo menos não em uma base mimética desse fazer.


Seu filme é a matéria-prima máxima de onde tudo deve ser entendido, contestado se for o caso, mas não escrutinado numa relação equivocada, ingênua ou incompreendida por parte de quem não entende ainda isso. Fica a reflexão aos colegas da "crítica", do espectador confundido ou daqueles que se levam pelas correntes absurdistas da visão simplista do senso comum nas suas mais descartáveis concepções.

Comentários


bottom of page