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A Natureza das Coisas Invisíveis: ver para além do esvaziamento da estética do sensível

  • Foto do escritor: danielsa510
    danielsa510
  • há 2 dias
  • 3 min de leitura
Crédito: Laura Brandão
Crédito: Laura Brandão

Dentro da experiência do cinema brasileiro contemporâneo, podemos trabalhar com a ideia de que existem algumas vertentes perceptíveis em curso. Há uma ala formada por um grupo de realizadores que estão inseridos ou partiram de trabalhos ou projetos pregressos junto a coletivos e produtoras cinematográficas "independentes" dos últimos 20 anos.


As aspas, aqui, fazem uma referência ao fato que, muitas dessas instituições espalhadas por todo o Brasil, funcionam mais como um cnpj ativo para o desenvolvimento dos projetos particulares dos realizadores idealizadores da iniciativa em si do que com a intenção de produzir trabalhos mais amplificadamente no campo do cinema ao redor do país.


Os grupos são instituídos como organizações, mas operam mais como um clube para trabalhos entre amigos e parceiros em comum de modo bem fechado, particular e exclusivista.


Assim como também percebemos uma manifestação de jovens realizadores de diferentes partes do país que parecem pensar suas produções, muitas delas ainda oriundas de práticas com o curta-metragem, a partir de um senso de experimentalismo e referencial muito bem definidos, ainda que muitos desses filmes ainda estejam em fase de maturação técnica e conceitual.


Nomes como os de Laís Araújo, do Maranhão, Danilo Daher, de Goiás, ou Leônidas Oliveira, aqui no Ceará, são expoentes dessa safra em questão.


Essa contextualização parece ser importante para pensarmos sobre como o cinema brasileiro tem se movimentado e refletido sobre sua própria prática a partir daquilo o que os filmes colocam em debate, apresentam como um modo de inflexão no mundo.


Diante da obra de Rafaela Camelo, por exemplo, é bem evidente em determinados momentos, como tudo gira em torno dessa aparente atmosfera intimista, lúdica, naturalista.


No meio desse processo, um termo aparece como referência nº 1 quando falamos de filmes com esses traços: um suposta narrativa do sensível que busca se estabelecer a partir de um aparente ideal de afetividade, mas que, no cerne das próprias histórias discutidas, trabalham dramaturgias onde o rancor, a raiva, o ressentimento e a imaturidade no trato das relações sociais são uma tônica colocada em cena reiteradamente.


Quando falamos desse aspecto da sensibilidade ou desse traço sensível que o olhar sobre a infância nos remete, a orientação narrativa natural nos direciona para uma abordagem onde a leveza daquele olhar retratado não seja apenas uma aparência, uma pedra de toque emulada apenas em momentos oportunos numa contraposição muito abrupta ou brutal no entrecorte de momentos de uma violência, ora velada, ora expelida de modo mais direto possível.


A análise das personagens das crianças nos evoca esse desconjuntamento daquilo o que César Guimarães discorre como sendo um pensamento de uma comunidade de cinema, ou seja, de uma cinematografia que traz esse ideal dessas relações afetivas tanto no nível da técnica, da produção, quanto no desenvolvimento e consequente aplicação no nível ficcional do exercício.


É pensarmos que, aquilo o que sai da boca dessas personagens infantis, coisas como: "Você está arruinando minhas férias", "Você é uma escrota", etc, são um recorte prático e um atestado dessa incongruência narratológica com aquilo o que estaria alinhado a uma "trama do sensível" ou algo do tipo.


É o oposto disso na verdade. A questão não é nem uma criança não poder dizer tal coisa ou agir com violência contra os próprios pais, não se trata disso. Se o argumento estivesse investigando as nuances do que torna o humano um ser de sombras e instantes de iluminação ao mesmo tempo, tudo bem.


Mas aparentemente o filme em si e a sua campanha de divulgação não fazem referência a nada disso, pelo contrário, enfatizam uma contrastante ideia de uma "história de humanidade" e por aí vai...


Enfatizo isso por entender que, particularmente falando, gosto muito do cinema do Michael Haneke, Cláudio Assis, Jean-Claude Brisseau, Chaterine Breillat, Aleksei Balabanov...Cineastas que colocam em prova esses limites entre o que pode haver de melhor ou pior no sujeito humano.


Então a questão não é você estar diante de um filme com uma narrativa "difícil", ou de um cinema mais hermético e sim, só mal executado e elaborado mesmo, esquecível e, a depender do caso, equivocado, como é o caso, aqui.

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