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Feito Pipa (2026): estado de presença no drama de amadurecimento

Foto do escritor: danielsa510
danielsa510
há 27 minutos
3 min de leitura
Crédito: Divulgação
Crédito: Divulgação

É sempre uma vitória quando a gente nota que há um filme brasileiro contemporâneo que entendeu a lógica da construção do espaço e o modo como encaixar isso dentro de uma proposta de dramaturgia que acompanha a complexidade desse sistema como um todo. Feito Pipa (2026) entende isso muito bem.


Desde O Melhor Amigo (2025), Allan Deberton parece ter entendido que uma coisa não poderia estar descolada da outra. É nesse sentido que há muito de Doce de Côco (2010), aqui. Sobretudo no modo como os ambientes internos são mapeados e decupados a partir de uma premissa de elaboração quase que da ordem do inegociável.


É bem particular a proposição que o cineasta propõe para a construção dos quadros, buscando sempre estruturar uma composição que rejeita a todo custo planos e contraplanos em favor de uma simplificação do quadro.


Por isso, tudo acaba se resolvendo dentro de uma única tomada. É simples, funciona e reorienta o nosso olhar contra uma lógica hiperpicotada da imagem fílmica. Temos tempo de olhar por mais tempo para o plano como partes de uma pintura.


As composições dos rios e da vegetação do Sertão Central cearense remetem a isso. Tal qual um exercício "fordiano", o Deberton extrai da natureza uma fonte inesgotável e orgânica que se torna um modo de olharmos para a tela.


Mas não somente isso, penso que há um trabalho muito forte de construção de personagens, sobretudo do protagonista. Porque assim como essa espacialidade cheia de nuances, essa criança é transparência e opacidade numa mesma medida.


Acho que tudo o que não estava tão bem alinhado e definido no protagonismo do "Lucas" de Vinícius Teixeira naquele musical, neste drama de amadurecimento revela um plano de construção de um personagem que vai crescendo à medida que os problemas e as questões na sua vida vão se tornando cada vez mais densas.


Falar dessa densidade importa porque ela mesma é utilizada de modo muito controlado só longo de todo o filme.


Se pegarmos a relação entre a criança e o pai, marcada por uma tensão entre o machismo do genitor e o desejo do filho de ser quem ele é sem amarras, em nenhum momento esse dado se torna uma muleta para o conflito ali estabelecido.


A gente entende a polaridade em torno daquilo o que o pai quer que o filho seja e os desejos particulares da criança em si, mas isso não é investigado de modo recorrente, como um ciclo apelativo entre "vilão" e "protagonista".


Só há um momento bem específico em que esse tensionamento se esgarça de vez. Ainda assim, Deberton nos priva da descarga de violência. Ele oblitera o gesto violento, tudo fica no campo da verbalização e a descarga do confronto se consuma por aí.


Decidir por essa abordagem na experiência do cinema contemporâneo, a propósito, é sobretudo um ato político. De escolher, não ocultar esse estado violento das coisas, mas optar por ressignificá-lo na montagem.


Depois da briga entre pai e filho, só vemos Gugu. Deitamos numa rede com ele e ficamos ali contemplando seu estado de presença entorno daquilo o que ele mesmo ainda não consegue elaborar, de fato. Há vários momentos como esse ao longo do filme.


E o interessante é que todos eles, ao fim de tudo, são esses pequenos tijolos que formam a ponte que nos levam até o Gugu transformado, mais maduro e consciente do que precisa ser feito por aqueles a quem ele deve a vida. O cinema que conscientemente entende isso, já ganhou o jogo da significação com a arte.

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