Marty Supreme: realismo (extra)ordinário
- danielsa510

- há 15 minutos
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Apesar da sua forte carga naturalista, gosto de pensar o cinema do Josh Safdie como não sendo necessariamente realista.
As narrativas dos filmes se passam em contextos realistas, obviamente, mas há um coeficiente no modo como ele lida com os elementos da forma que usualmente nos leva a entender seus trabalhos como projetos que emergem dessa atmosfera do cotidiano, encabeçada por figuras humanas, mas que carregam na sua gênese esse DNA de algo extraordinário, inesperado.
Em Marty Supreme (2026), isso parece ser levado a um nível similar na comparação com suas obras pregressas, mas com a diferença de um toque do extraordinário. Não no sentido de ações presentes no filme que estivessem fora dos limites da realidade como a entendemos, inclusive diegeticamente falando.
Penso que esse traço esteja mais relacionado a uma vertente da própria energia vinculada ao ritmo do filme em si. Considerando uma duração total de 2h30, ficamos com o sentimento de que os eventos jamais sofrem alguma pausa ou digressão que não esteja ali pontuada em função da dinâmica que a narrativa elucida.
Em um fluxo de ação constante, Marty não descansa. Do prólogo à conclusão, o personagem é uma engrenagem de uma ação operacionalizada incessantemente. E mesmo quando haveria um arranjo para um momento de pausa, descanso, algo irrompe com a natureza dessa aparente calmaria, realocando mais uma vez o curso dos eventos para esse estado de frenesi perene, que se estabelece de modo constante.
Em alguma medida, esse é um modelo que lembra Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo (2022), mas com o bônus de o Safdie deter uma consciência e um controle sob uma narrativa que não deseja apenas induzir determinadas reações no espectador, como um riso fácil ou qualquer tentativa de se ludibriar o espectador pela cosmética intuída das imagens ali geradas.
Importante ressaltar que esse elemento do caos que o protagonista e a dinâmica da história encarnam, não parecem fruto de um desejo auto imposto pelo autor.
Gosto, nesse sentido, em como as situações vão sendo um desdobramento consequencial de certas decisões que o protagonista toma, mas também reflexos de uma série de contingências que estariam relacionadas aos eventos e os demais personagens neles inseridos.
Tanto aliados quanto "inimigos" do circulo de Marty operam num esquema de proporções e respostas que justificam bem suas presenças no fluxo da trama. Por isso me atrai muito também o modo com o filme se estrutura narrativamente falando. Nem tudo é sobre o esporte ou o alcance de um sonho de grandeza em si.
Ficamos com essa ideia, a princípio, mas logo que o primeiro arco se encerra, entendemos que há mais no jogo ficcional. Não assumir o lugar do "biópico baseado ou inspirado em fatos reais" ajuda bastante o filme a se libertar das amarras da retratação histórica, etc.
Isso nos leva de volta ao tópico de como podemos entendê-lo, na verdade, como uma distopia meio desconstruída. A contar pelo uso do som, toda a trilha sonora nos convida a esse mergulho em um tempo fraturado.
Vemos um realismo pautado no contexto dos anos 1950, mas constantemente nos capta para um ambiência extradiegética musical - portanto fora da realidade do filme - dos anos 1980.
Mas não somente por isso. Há um momento por volta do terceiro ato onde um diálogo entre dois personagens parece colocar mais contundentemente essa hipótese distópica sobre a real natureza naturalista do filme em si.
É um jogo bem interessante se pensarmos como os limites da especulação ficcional contemporânea podem atuar a partir daquilo o que uma linha de fala ou um momento/ação executada podem, juntos, desvirtuar os sentido da interpretação de toda uma dramaturgia como tendemos a entendê-la na arte do cinema.
Acho que esse é o brilhantismo que este tipo de abordagem permite e que cineastas como os brasileiros Juliana Rojas e Marco Dutra, o italiano Luca Guadagnino ou o francês Bertrand Mandico conseguem operar em suas obras. Muito bom.



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