Valor Sentimental: uma narrativa de aposta na vida
- danielsa510

- há 2 dias
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O cinema do Joachim Trier tem estabelecido ao longo da última década um diálogo muito pertinente em relação à matéria humana e no modo como as relações entre as pessoas moldam perspectivas de futuros e passados, fins de ciclos e recomeços de jornadas em vida.
Aqui, ele segue uma premissa semelhante a de trabalhos como Começar de Novo (2006) e A Pior Pessoa do Mundo (2021) para estabelecer uma narrativa pautada em um drama familiar, mas sem, necessariamente, desembocar numa abordagem hiper dramatizante.
Percebemos certos contornos melodramáticos no modo como determinados eventos são conduzidos, mas essa intensidade própria do subgênero nunca determina um tom único para o trabalho.
Penso que ele equilibra muito bem esse fluxo entre uma vertente dada a uma lógica dialética e uma perspectiva mais estilizada na construção de determinadas imagens ou paisagens sonoras que, juntas, criam uma ambiência sempre muito intimista e carregada de sensorialidades.
Gosto bastante do prólogo, por ele evocar essa veia como essa espécie de cartão de intenções que a obra vai assumir na sua totalidade. Não é uma mera prática estetizante ou cosmeticamente elaborada somente enquanto um capricho maneirista.
Se a narrativa fala sobre o modo como essa casa - esse ser inanimado que adquire uma aura anímica a partir daquilo o que as pessoas vivenciam no seu interior - faz muito sentido apresentá-la como esse ser vivente mesmo, como essa grande arena de encontros e embates geracionais.
Por isso acho injusto renegar ou ler o filme apenas como um drama indiferente típico de temporada de premiação do Oscar. Ele tem um ritmo bem linear, e com pouquíssimas variações em oposição à "Pior Pessoa...", é verdade, mas nem por isso se compara às narrativas ocas ou blasés que a Academia tende a premiar, a exemplos de obras como Coda, Green Book, Spotlight, etc.
Não faz sentido essa comparação porque o Trier é um realizador que tem uma visão sobre o universo que ele propõe nas suas narrativas. À exceção de Thelma (2017), certamente seu trabalho mais destoante em múltiplos sentidos, este novo filme tem uma composição bem específica em termos conceituais e técnicos que o elevam na comparação em questão.
E entendo que, só de ele apostar num caminho de redenção e reconciliamento para seus personagens em detrimento a uma trilha de ressentimentos e rancores em espiral, nos vemos libertos, enquanto espectadores, de mais uma narrativa de negação da vida. Oslo e Começar de Novo encarnam bem essa linha, mas entendemos que, nesse ponto da sua filmografia, Trier decide fazer uma aposta nas veredas que a arte e a vida podem instituir, quase que de modo simbiótico.
Há um sopro referencial bergmaniano nisso e certamente, por isso também, a dialética seja a linha de toque principal da construção dramatúrgica e narratológica deste novo filme. Difícil, portanto, desconsiderarmos isto.



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