O Drama: pôr o coração na prática cinematográfica
- danielsa510

- 4 de mai.
- 2 min de leitura

Reconforta ver e entender que o Kristoffer Borgli não tentou simplificar o próprio fazer em detrimento de uma busca por encaixar O Drama (2025) dentro de uma determinada janela de apreciação "fácil" da coisa. A ideia do escárnio e a atmosfera da dramédia reinam no todo da obra, mas nunca geram a sensação de descompensamento na sua escala tonal. O que é algo raro no cinema mainstream ocidental contemporâneo.
E sim, a A24 não faz "cinema independente". Interessante pensarmos o que é a independência no exercício cinematográfico quando o que se parece estar em jogo passa pelo formato da produção. E no caso da prática hollywoodiana, lidamos com detalhes que são usualmente da ordem do controle daquilo o que os grandes estúdios da ala comercial desse fazer equacionam.
Mas para além dos orçamentos milionários, esquemas articulados de distribuição ao redor do mundo e o casting com nomes em ascensão na área, o filme se vale quando se pensa, acima de tudo, enquanto "cinema". E é isso o que Borgli não abre mão, aqui.
Não é nem que ele crie situações ultra complexas ou reveladoras nos termos daquilo que os amantes de plot twists geralmente colocam em discurso. Na verdade, ele parte de eventos bem banais para estruturar a dinâmica entre os personagens. Toda a questão central que move o problema da trama é alicerçada numa sequência de um jantar casual.
Interessante que, considerando a realidade do filme, há esse índice de indeterminação em relação ao que acontece em um simples momento entre amigos e em como isso detona uma série de micro fissuras na forma com que essas pessoas se relacionam entre si. De todo modo, é notável ver o quanto o cineasta gosta dos personagens por ele criados.
Eles podem ser repletos de questões, imperfeitos ou perfectíveis. Mas sempre entendemos o quanto cada um foi escrito com um certo zelo, um cuidado em relação àquilo o que um realizador busca pontuar ou problematizar a partir desses tipos ali estabelecidos. Fico pensando que, nos termos de hoje, ter um amor pelo cinema é isso.
É colocar um coração na prática desse fazer e buscar, a partir dos seus personagens ali elaborados, estabelecer um vínculo sincero com o espectador, algo da ordem da experiência cinematográfica não necessariamente como espetáculo, mas talvez muito mais enquanto visão partilhada sobre as nuances da arquitetura da vida cotidiana e suas inquietações. Bom demais



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