Barbie (2023): dos acordos em meio ao fenômeno na cultura pop
- danielsa510

- 25 de jul. de 2023
- 3 min de leitura

Direção: Greta Gerwig. Roteiro: Greta Gerwig, Noah Baumbach. Produção: David Heyman. Montagem: Nick Houy. Fotografia: Rodrigo Prieto. Figurino: Jacqueline Durran. Música: Alexandre Desplat. Design de Produção: Sarah Greenwood
Mais do que um filme "rosa", ameno ou esquecível, Greta Gerwig não chega a fazer um projeto autoral com Barbie (2023), obviamente, mas, a exemplo do que propõe desde Lady Bird (2018), executa um trabalho onde algumas ideias são pontuadas e permanecem conosco depois dos créditos finais.
Quando pensamos na lógica de Hollywood, geralmente há um senso de emergência e generalismo muito grande. Mas não aqui. Não é que seja este "o filme" da carreira da diretora, mas entendemos e percebemos certas decisões que passam diretamente pelo seu olhar.
Algo geralmente relacionado a uma sensibilidade que ela tem no desenvolvimento de determinadas situações dramáticas que inesperadamente se manifestam no fluxo dinâmica entre seus atores e as situações em que os personagens estão inseridos. Quando vemos a protagonista chorar, por exemplo, não há excessos nesse gesto.
Alguma coisa a machuca e ainda que ela seja uma boneca transportada para uma dinâmica do mundo real, seus sentimentos jamais são diminuídos em função do filme ser uma comédia musical. Greta respeita bastante isso, assim como ela tem muito respeito por essas figuras em cena, também.
Saber o que colocar na boca de cada um deles fala muito disso. Nada mega complexo, claro, mas que jamais se deixa descartar por ser um trabalho de subgênero. Mas uma vez que a obra em si vai se esgotando, de certa forma e sobretudo ali no final do início do terceiro ato, Gerwig engatilha dos recursos que o filme, no seu direto, pode se fazer valer.
Toda a sequência do musical no último ato revelam essa força. A vontade que sentimos é a de ficar mais alguns minutos ali vendo toda aquela construção de tão bem arranjada que ela é. É para isso que servem os musicais. De Jacques Demy a Noah Hawley, ver essas figuras encenar a vida e seus conflitos passam por isso.
O exagero só ocorre da parte da ludicidade investida nessas construções ficcionais. Mas nas extremidades de cada trabalho com esses contornos, reside uma proposição de implicações reais. A lotação das salas de cinema ao redor do mundo e o apelo do sistema que emprega uma lógica predatória derivada da existência de um produto cultural, são tópicos claros de um cinema que se torna um estudo de caso para além da obra em si.
O fenômeno percebido no mundo real e nas suas extensões, como o ciberespaço detalha, não se finalizam naquilo o que o filme, enquanto elemento isolado, é. O tópico fílmico acaba se salvando por si só e o jogo que Gerwig estabelece vem a reboque de tudo isso.
Porque nada disso importa. Só existe o filme. Não enquanto "ficção", projeção de fenômenos da cultura pop. Se superarmos isso um instante entenderemos porque quando saímos da sala de exibição o filme permanece com a gente.
Isso é sobre não se esquecer do cinema ou entender o cinema como um processo de pertença, de algo a deixar conosco. Isso é algo valioso na nossa relação com a arte dos dias de hoje. E Greta entende isso bem.



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