Kill Bill: The Whole Bloody Affair - Revisionismo referenciado
- danielsa510

- 23 de mar.
- 2 min de leitura

Essa é uma versão deste projeto que soa, definitavamente, bem menos exagerada do que a memória costuma nos aparentar, considerando o exercício de revisão. Óbvio que há os momentos de maior excesso, sobretudo em relação ao traço do modo como a violência se manifesta (na sanguinolência, no contorno gráfico de membros decepados ou nas ações de crueldade representadas em cena).
Mas é incrível notarmos como o Tarantino resguarda, em Kill Bill (2003/2004), decisões que muito nos lembra alguns dos melhores momentos de Jack Brown (1997), certamente seu melhor filme. Principalmente no modo como ele conduz os instantes de interação entre os personagens.
Apesar do dinamismo super elevado do ritmo próprio do filme, os instantes em que essas figuras dialetizam questões em enfrentamentos diretos e indiretos falam bastante desse equilíbrio entre uma estetização que parece sempre muito nivelada por esses instantes de suspensão prática da trama.
O que nos leva a entender como o filme em si opera numa escala de duplicidade em relação a elementos que poderiam ser lidos como conflitantes, mas que, em função de um senso de organicidade muito bem elaborado, jamais soa confuso ou gera algum estranhamento, descompensamento.
Nisso, à forte estilização de certas cenas, parece sempre haver um contrabalanceamento de um estado naturalista ou realista das coisas. Na primeira sequência de luta entre Kiddo e Green, é muito exagerado o uso dos efeitos sonoros e ADRs em cada soco, chute ou demais sonoplastia vinculada à cena de ação.
Mas em determinado momento, uma suspensão. As assassinas dividem um café, falam dos rumos da vida compartilhando um código de honra que se replica em diversos outros momentos da obra.
Do mesmo modo, ao impossível captado em uma proposição hiperrealista própria do filme de gênero em si, muitas vezes se alternam instantes fortemente pautados em um senso de naturalismo.
Ou seja, se em certas situações vemos a protagonista realizando tarefas extra humanas, como voar pelos ares, matar dezenas de homens em um combate sangrento; em outros instantes, a vemos passando por provas realistas, como ter de ficar 13 horas em um carro para recuperar parte dos movimentos do corpo em função de um coma de 4 anos.
Nessas idas e vindas de uma dinâmica hiperreferencial, compreendemos o quanto fica mais fácil e rico ter a dimensão de onde Tarantino partiu para criar esse universo específico.
De "Cinco Dedos de Violência", passando por O Assassino de Shantung, Confissões de uma Cortesã Chinesa, Armas Lendárias da China ou o Clã do Lótus Branco, o cineasta americano não teria o estofo necessário para propor sua obra sem o contato com a experiência da Shaw Brothers.
O Western também figura forte na saga de vingança, mas é o Kung Fu quem dita as normas de como as coisas vão se dar, de fato. Impecável.



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