Uma batalha Após a Outra: um certo exercício de aparências
- danielsa510

- há 2 dias
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Realmente, toda a primeira parte de Uma Batalha Após a Outra (2025) soa estranha no sentido daquilo o que o filme quer representar enquanto uma exemplificação do que seria o estado revolucionário a mover os ideais dessa organização a qual Bob e Perfidia fazem parte.
É caricato, de fato, e parece ir na contramão do que uma construção naturalista viria a evocar. Mas penso que a questão, ao fim de tudo, nem chega a ser essa, pelo menos não para Paul Thomas Anderson (PTA). Óbvio que ele não quer fazer um filme de "denúncia", etc e mesmo se quisesse não teria conseguido na toada do que todo o primeiro ato assume.
No máximo, talvez, nos permitiria uma leitura caricata de um Movimentos Noturnos (2013), da Kelly Reichardt, quando muito. E como muito já tem sido colocado, acho que no momento em que o filme se volta para a construção das situações no nível da diegese, digamos, tudo se encaixa e desenvolve-se muito melhor.
Sobretudo pela habilidade do PTA em construir os eventos a partir das dinâmicas e interações estabelecidas entre os seus personagens. Importante colocar isso porque, tomando o cinema contemporâneo como parâmetro, são poucos os cineastas que conseguem construir cenas que ressoam algum engajamento mínimo por parte do espectador do outro lado da rampa, como diria Serge Daney.
Em se falando do modelo de representação estadunidense, fico pensando muito sobre como o modo de determinados autores tem lidado com as novas formatações da própria indústria hollywoodiana lá.
Sem essa "parte do meio" dos realizadores que ficavam no meio termo entre os pequenos estúdios e as grandes empresas do ramo, o Thomas Anderson parece operar nessa escala de aparências mesmo.
Executa em determinados momentos da sua filmografia um cinema, que a exemplo de Sangue Negro (2007), parece maxilimalista, epopeico. Em outros períodos, ressoa um trabalho que parece condensar a densidade de narrativas cuja opacidade se reveste como enigmas conteudísticos, vide O Mestre (2012) ou Vício Inerente (2014), por exemplo.
No meio desses termos, Trama Fantasma (2017) e Licorice Pizza (2021) apontam, cada um a seu modo, uma visada em favor de um cinema da adaptação, que considera a proposta desta assinatura do cineasta com essas narrativas e seus personagens imersivos, em adição aos encaixes temáticos da agenda contemporânea, como no caso desse novo filme.
Quando o diretor se volta para uma suposta crítica ou pano de fundo temático, o tom da obra não se assume nem tanto como farsa, soando apenas como descompromissada mesmo. A prova mais evidente disso é a ideia da representação desse emigrante que, verdadeiramente, em cena, vira um borrão, não tem rosto, presença.
É só um adereço cênico dentro da suposta crítica de uma política de expropriação da vida na América do Norte. Em uma outra via, quando o curso do filme retorna para o nível prático da coisa, o trabalho verdadeiramente se reincorpora. Mesmo o segmento da revolta na cidade resguarda uma atmosfera muito viva, pulsante em relação ao cinema como espetáculo controlado.
E digo isso lembrando de sequências vexatórias desse tipo de encenação, como é o caso de diretores experientes como Bertolucci em Os Sonhadores (2003), que, de longe, apresenta uma das piores sequências de revolta urbana que vi na vida. É bizarro.



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