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Missão: Impossível - Acerto de Contas - Parte 1

  • Foto do escritor: danielsa510
    danielsa510
  • 18 de jul. de 2023
  • 3 min de leitura

Direção: Christopher McQuarrie. Roteiro: Christopher McQuarrie, Erik Jendresen. Produção: Tom Cruise, Christopher McQuarrie. Montagem: Eddie Hamilton. Fotografia: Fraser Taggart. Som: Glenn Freemantle. Música: Lorne Balfe. Efeitos Visuais: Robin Saxen. Dublês: Wade Eastwood


Em linhas gerais é, de fato, um filme bem mais refreado do que "Efeito Fallout" (2018). Não no sentido do modo como a ação se distribui na sua estrutura como um todo - nisso são bem similares. Mas nesse sétimo capítulo da série, McQuarrie decide realmente seguir uma lógica mais "clássica" nos termos do enredo.


Algo que se assemelha muito à própria morfologia que "de Palma" a introduziu em 1996. A diferença aqui reside na questão do tom, mesmo. Nos 27 anos que separam os dois filmes, há elementos de similaridades visíveis e pontos de distâncias focais imanentes também. Nos termos da proximidade, o foco recai na problemática do jogo de espionagem internacional.


Claro que todos as demais cinco partes da franquia orbitaram em torno disso, mas nenhuma outra havia sugerido mais essa referência tanto quanto essa primeira parte de "Acerto de Contas". A própria retomada de determinados personagens entre esses dois tempos fala bastante dessa ponte que conecta o passado com o presente de Hunt (Tom Cruise).


Gosto particularmente como essas figuras são inseridas na estória a partir de uma premissa bem orgânica nos termos dos eventos presente na ficção. Tanto Kittridge (Czerny) quanto Gabriel (Morales) são esses pontos de reconexão das obras.


E suas aparições não soam como gatilhos nostálgicos daquilo o que um outro filme pregresso foi, uma vez que suas questões são postas e atravessam os problemas e dilemas específicos dessa parte do longa-metragem. Ainda assim, a ideia dessa vilania descorporificada soa menos forte ou até mais objetiva do que o plot dos plutônios em "Fallout" ou mesmo a ameaça terrorista em "Top Gun: Maverick" (2022), por exemplo.


Mas quando pensamos no índice da ação de modo isolado, ele segue a premissa mais calculada, assim como os outros trabalhos da franquia. Nessa "Parte Um", no entanto, ela acaba se estabelecendo através de determinados intervalos que não chagam a refrear o ritmo das sequências em si, mas rearrajam a dinâmica em comparação a dos dois filmes anteriores.


É como se a ação fosse menos intuitiva e se desse organicamente a cada novo evento, além de ser pautada mais por blocos pré-estabelecidos em função do MacGuffin ou desse objeto que é a chave a qual se abre algo não revelado ainda e que impulsiona os personagens da estória a frente. Isso não chega a ser um problema já que apenas reforça, realmente, esse traço mais convencional adotado pelo filme no seu trato com o subgênero da espionagem.


Tópico esse que, a propósito, nos remonta a questões particulares bem interessantes e passíveis de análise. Como por exemplo, a razão posta por meio da reconfiguração do espaço social nesse cinema de ação ocidental contemporâneo.


Afinal, assim como observamos em "Acerto de Contas", também em "007 - Sem Tempo para Morrer" (2022) e "John Wick IV" (2023), o clube noturno é apresentado enquanto lugar não mais de celebração, mas tão somente como uma armadilha a qual o protagonista é atraído e que, eventualmente, ainda que a algum custo, saia com vida.


Um padrão que se replica seja em um prédio no meio da noite cubana, em um imenso galpão numa madrugada alemã ou numa rave italiana dentro dessa mesma temporalidade. De alguma forma, o jogo é para vermos se os heróis dessas narrativas saem vivos desses locais (re)configurados.


Como todos são humanos, suas memórias, pelo menos acabam resistindo ao tempo ainda que seus corpos se desliguem em determinado ponto das suas trajetórias. Foi assim com Bond (Daniel Craig), com Jonhnatan (Keanu Reeves). Essas figuras heróicas da pós-modernidade cinematográfica só parecem encontrar uma genuína paz na morte.


Como que numa luta contra a própria ideia das suas existências na universalidade ficcional, essas figuras encarnam o que poderíamos tomar como mitos refundados a partir das suas próprias perenidades. Eles são gestados, moldados, ascendem e se apagam na lógica do espetáculo fílmico dos nossos dias.


Ainda que entendamos que suas refundações tornam-se algo cada vez mais demandado dentro desse mesmo sistema que os gere. Se Ethan Hunt também terá sua conclusão pelo viés da inevitavilidade da morte é algo que o próximo capítulo da série apontará.


Fato, por hora é que, em um único capítulo que seja, McQuarrie acaba, acidentalmente ou não, pontuando uma contundente reflexão sobre o porquê a finitude da vida das personagens femininas em um filme é algo tão irrevogável assim. São questões postas quase que inconscientemente, talvez, mas que devem, sim, mobilizar também nosso olhar para além daquilo o que a "inocência" do filme pressupõe.


São pontos para uma discussão mais prolongada, sem dúvidas.

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