Moonage Daydream: a universalização do ser artístico
- danielsa510

- 19 de set. de 2022
- 3 min de leitura

Direção: Brett Morgen. Roteiro: Brett Morgen. Produção: Bill Gerber, Brett Morgen. Montagem: Brett Morgen. Som: David Giammarco, Paul Massey. Música: David Bowie.
Se David Bowie foi um maluco esquisito, um desajustado, hétero, homo ou bissexual, se ele foi um alienígena ou um ser extraviado de uma outra galáxia, não saberemos. O mais importante na proposta do filme em si é essa espécie de desejo descompromissado que Brett Morgen estabelece de não tentar somente contar uma biografia daquilo o que o músico foi.
Talvez a ideia seja mesmo a de entendermos que partir dessa proposta fosse uma forma limitante de entendermos o que Bowie foi em toda sua completude e complexidade. Se ele foi mais que um alguém da música, uma cinebiografia sua precisaria de fato ser pensada pelo espectro de uma experiência sensorial.
Mas como fazer isso numa era onde os estímulos sonoro-imagéticos se multiplicam e se impulsionam em um ritmo cada vez maior? Nos limites daquilo o que o documentário contemporâneo pode estabelecer, Morgen opta pela imersividade em um exercício estabelecido essencialmente pelo princípio entre o acordo estabelecido naquilo o que a tela projeciona e o modo de resposta que o espectador (sobretudo aquele que está na sala de cinema) dá como retorno a esse regime proposto pelo filme.
Pensar nisso é engraçado porque quando vamos reimaginar a experiência do cinema dentro do dispositivo da sala fechada, do espaço da penumbra, do sonho que se desenrola enquanto estamos semiacordados, tudo nos leva ao encontro desse estado de quebra de barreiras do nosso sentido imaginativo.
Por isso a proposta da obra em estabelecer uma certa busca arqueológica do que a vida e obra de Bowie possa ter sido funciona tão bem. A ideia do filme enquanto documento biográfico em si dá lugar para um apresentação em primeira pessoa.
Uma proposição que em parte se assemelha muito ao processo desenvolvido em Montage of Heck (2015), mas que aqui se atomiza ainda mais por partir e se encerrar no olhar do objeto da pesquisa em si: o próprio Bowie.
É um trabalho em primeira pessoa que assume um tom de autenticidade não apenas pelo preciosismo do conjunto de imagens - muitas delas nunca vistas antes em vídeo - sobre o músico, mas sobretudo pelo agenciamento desse corpus imagético e sonoro que constituem a base do filme na sua totalidade.
As decisões de Morgen refletem - se muito definidamente considerando duas frentes. Uma primeira assinalada no papel que o som assume. Onde a música é essa banda sonora que sempre opera de modo orgânico, ou seja, todas as canções são faixas gravadas de apresentações ao vivo.
Ou seja, a sensação de estarmos dentro de inúmeras apresentações fora de estúdio cooperam para a criação dessa atmosfera "realista" dentro da realidade retratada no documentário. O que é curioso, porque de fato se o filme utilizasse canções gravadas em estúdio, minimamente esse efeito extra sensorial seria minimizado diante dessa suposta "artificialidade" das músicas editadas em estúdio.
A canção captada no ato artístico apresenta essa aura do registro do momento, ainda que entendamos nosso lugar do lugar de onde nos encontramos no assento da sala de cinema. Um segundo ponto de onde o filme retira sua força vem exatamente do seu componente imagético/icônico. Todas as imagens gravadas em estúdio, criadas a partir de registros fotográficos, colagens pictóricas, sobreposições e gravações televisivas restituem esse recorte do que Bowie significa.

Não necessariamente precisam ser lidas com espetaculares, únicas ou impossíveis de serem reproduzidas. As colagens, como recurso muito presente no filme, também pode ser visto em publicidades de campanhas políticas, por exemplo.
Ou seja, notamos já aí uma certa descaracterização de uma proposta que se metamorfoseia para outros processos, ora na publicização comercial ou do período eleitoral em si. O que não deixa de refletir essa ideia de apropriação e consequente despotencialização da proposta em si.
Quanto à Bowie, o que dizer dele ao fim de toda essa reflexão? Foi ele um alienígena, um gênio, um louco, um messias artístico da contemporaneidade, tudo isso e nada do que dele disseram? Nada parece dar conta de questões como essas. Morgen não busca dar retorno de nada disso. E por isso que sua obra é tão potente. Realmente inesquecível.



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