Natal Amargo: múltiplas dimensões do exercício fílmico
- danielsa510

- há 3 dias
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Em Natal Amargo (2026), a proposta de Pedro Almodóvar em projetar a experiência da realização de modo metalinguístico poderia até soar reiteradamente pouco criativa, dada a constância com que o cineasta volta ao tema, mas, de alguma forma, isso não acontece.
Acho que a decisão dele em estabelecer a narrativa em uma estrutura modular ajuda bastante nisso. Em linhas gerais, é como se o filme estivesse, como de fato, está, arquitetado a partir de quatro dimensões que se interconectam de modo conceitual e temporalmente.
Há o cineasta da vida real que idealiza o filme; o personagem do cineasta ficcional que idealiza a ficção dentro dessa estrutura pregressa; a personagem idealizada pela figura ficcional; e o microcosmo também ficcionalizado escrito por esta mesma figura.
Chega um momento em que passamos a não mais intuir ou pelo menos não ficamos a tentar supor onde estamos dada cada uma dessas quatro dimensões. Isso porque passamos a entender que pouco importa termos essa "consciência" na dinâmica com a narrativa.

Não importa. Ainda que fortemente pautado por uma estética melodramática, hoje menos afetada e exagerada àquela instituída nos anos 1980/1990 ou à trágica noção das suas obras dos riquíssimos anos de 2000 a 2010, Almodóvar, hoje, parece mais inspirado e instigado pelo cinema metalínguístico do The Archers, de Powell e Pressburger ou pelos melodramas fatalistas de Ray, onde a vida geralmente, assim como a visão de Pedro mais recentemente, traz um amargor característico dos dramas humanos quase sem resolução.
Tudo isso, por si só, é uma prova linda de que as referências são uma das maiores matérias-primas para a arte cinematográfica, seja você um Parsons, num início de jornada expandindo algo criado por você mesmo num exercício de metalinguagem contemporânea ou um realizador no topo da mais alta montanha criativa, como é o caso do mestre espanhol.



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