Para Minha Irmã: o drama, o terror e a tragédia do ser adolescente
- danielsa510

- 9 de ago. de 2021
- 4 min de leitura

Direção: Catherine Breillat . Roteiro: Catherine Breillat. Montagem: Pascale Chavance. Direção de Fotografia: Giorgos Arvanitis. Produção: Jean-François Lepetit. Som: Jean Minondo.
O formalismo cinematográfico é um dos pontos de grande discussão sobre os limites e fronteiras da expressão artística. No caso do cinema, a forma do filme determina muitas vezes não apenas a dimensão estética de uma obra, mas também um coeficiente na ordem conceitual mesmo. Esse parece ser o recorte que Para Minha Irmã (2001) encarna. Escrito e dirigido por Catherine Breillat, o trabalho traz uma das mais contundentes narrativas desse século XXI.
Antes, vale fazermos aqui uma importante separação que colocam em pólos distintos a ideia do “filme polêmico, perturbador” e da obra autoral, que colocam em campo todo o desenvolvimento de um trabalho pregresso. E no caso de Breillat, esse segundo cenário representa bem a leitura possível para o seu sétimo longa-metragem da carreira. Taxar, portanto, este filme em específico como sendo somente um projeto “polêmico”, é, antes de tudo limitar as potências de interpretação da obra.
Ou seja, partir disso é desconhecer a própria trajetória da realizadora em si. Uma vez que, toda a sua filmografia, iniciada ainda em 1976, parte desse universo de investigação entre o feminino, a sexualidade e o cinema de gênero. Abrindo as reflexões desse cinema que também inaugurava o pensamento acerca de um novo milênio, Para Minha Irmã é esse filme múltiplo. Ele não se encerra dentro de uma única concepção ideológica. Não é só um estudo de personagem, mas de personalidades.
E com uma espécie de lente macroscópica, ele vai tecendo sutis comentários e criando indícios de interpretações possíveis que podemos ter acerca dos personagens da estória. Toda essa sutileza, obviamente, nada tem a ver com qualquer dispensa de profundidade com que a autora lida com os tópicos do longa. Pelo contrário. Eles são um conjunto de pistas alocadas em diferentes momentos do filme e que exigem do olhar do espectador mais do que aquilo o que a relação convencional “quem olha e quem vê” pressupõe.
Se pensarmos, por exemplo, na reflexão sobre a sexualidade, é muito interessante como Breillart se utiliza de determinados elementos de representação na própria cena para endossar a ideia desse universo temático em si. Quando Anaïs, sua irmã, Elena e o namorado, Fernando, vão passar uma manhã na praia próximo à casa das garotas, há um momento em que vemos Anaïs em um plano geral descendo uma encosta. A adolescente à esquerda do quadro e a sua direita, um imenso farol de cores vermelha e branca.
Para um diretor desatento, a composição seria apenas um modo de representação daquelas figuras sem uma proposição de maior profundidade. Pelos olhos da diretora, a torre se torna uma metáfora desse coeficiente fálico e simbólico dessa sexualidade que operava muito fortemente junto aos personagens. Claro que esses índices de representação são mais complementos que se somam à estrutura dramática do filme. Acho que para além desse pensamento mágico sobre o “filme perturbador”, mais vale nossa atenção para os modos como o filme lida com a modulação no uso dos gêneros, por exemplo.
Desde o início do primeiro ato, notamos uma certa dificuldade em enquadrá-lo. Tudo parece ser colocado em cena de forma meio abrupta, mas logo vamos intuindo que essa emergência no modo como os eventos vão sendo retratados diz muito da própria propulsão energética que as garotas sustentavam no seu modo de ser naquele momento da narrativa. Quando a pulsão sexual passa, todo o escopo do drama erótico vai se convertendo dentro de um esquema dramatúrgico que tem no melodrama, no suspense e terror sua máxima.
Essas transições são feitas de modo muito sutil. Muitas vezes, a própria narrativa vai costurando a mescla entre essas tonalidades assumidas pela dinâmica entre os gêneros. A passagem do drama erótico para o terror, por exemplo, fica bastante evidente na ideia dessa experiência partilhada entre Anaïs e Elena. Seja pelo compartilhamento da vida privada enquanto irmãs ou pela violência e controle mantido no seio da relação de parentescos em si. Porque no fim, a impressão que temos é a do completo estado de dessubjetivação ao qual a protagonista está submetida.
Toda a sequência do retorno da família, saindo da casa de praia rumo à cidade traz essa carga de estranhamento. Fala muito de um peso e tensão que à princípio não conseguimos sondar mas que se relaciona em sentido quando a violência explode na tela. Essa decisão, apesar de trazer consigo um peso pela visceralidade de como os eventos se sucedem, não finda como uma escolha aleatória e desproporcional. Porque ao longo de toda a narrativa, Breillart nos deu indícios de que algo ali não se tratava apenas de um drama juvenil.
Esse coming of age às avessas estava o tempo todo sob domínio total da sua autora. E enquanto realizadora, nesse sentido, ela foi pontuando essas tensões desde o início a partir do olhar da protagonista. Todo esse escopo violento, de descobertas, desejos e medos foram sendo trilhados no curso da estória para exatamente tecer essa nova Anaïs que estaria para surgir um pouco antes das cartelas de créditos finais surgirem na tela. A vida é dura e a ficção no seu papel de dar a ver essa construção não se priva a nos colocar para refletirmos sobre o peso dessa vivência não idealizada.



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